Como uma módica
quantia para o sustento de uma casa, tu me davas não mais do que
uma parcela minguada dos teus sentimentos.
A cada ano que
passava, tu foste exigindo de mim que eu me fizesse entregue,
que sustentasse nossa relação, com os parcos carinhos com que te
dignavas agraciar-me. Eu sempre os aceitei ansiosamente e tu nem
percebias as consideráveis somas de amor com que eu contribuía,
minuto a minuto, para a nossa união.
Mas, sem saberes, eu
retirava uma pequena parcela do pouco que tu me davas(
porque jamais irias suspeitar que eu fosse capaz de roubar o
nosso próprio cofre).
Nada esbanjei do que
de ti recebi e roubei. Eu até poderia sair da tua vida, fugir ou
morrer, sem nada te contar, e jamais desconfiarias de coisa
alguma.
Ah! Como teu espírito
é cego! Tua cegueira não permitiu perceberes que tua quantia de
amor em nossas vidas não bastava para sustentar nossa relação,
que precisarias contribuir no mínimo com o dobro.
Mas eu me desdobrei
por nós dois.
Eu não precisaria
confessar isso agora. Nunca percebeste coisa alguma na tua
avareza. Mas outra mulher talvez não se saia tão bem quanto
eu, e poderias vir a cobrar dela o mesmo desempenho: se eu me
arranjava por que ela não? Coitada...
Entanto confesso: dos
míseros bocados que tirei do que tu me deste, fiz uma poupança,
aumentei meu capital. Hoje, tenho mais amor ainda do que quando
a ti me entreguei e que irei aplicar em outro investimento mais
seguro e rentável.
Outra vez,
desculpa-me, por haver te enganado, apesar de não ter te
empobrecido mais do que sempre foste, mas eu saí rica da tua
vida.
Agradeço-te por isso
(Inspirado em trecho de "Werther",
de Goethe)
Este texto encontra-se
protegidos pela Lei Brasileira nº 9.610, de 1998, por leis e
tratados internacionais.
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